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BELLE |
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| Em Julho de 1995, durante trabalhos de levantamento subaquático em Matagorda Bay, um grupo de mergulhadores da Texas Historical Commission (THC) encontrou um canhão de bronze. Nele foram encontradas, em relevo o "L" que identifica o rei
Luiz XIV, o chamado Rei Sol, e as âncoras cruzadas do Conde de Vermandois, Almirante da França de 1669 à 1683. Este foi o achado que impulsionou o início de um dos mais recentes trabalhos de Arqueologia Subaquática/Naval e um dos mais significativos achados arqueológicos da América do Norte. Poucos dias depois, próximos ao canhão, foram encontrados os indícios da presença de uma embarcação naufragada. Devido às informações documentais e aos dados fornecidos pelo canhão confirmou-se o nome da embarcação, era a "BELLE", naufragada em 1686 e que fora dada, pelo próprio Luís XIV, ao explorador francês René Robert Cavelier, Sieur de La Salle, o homem que reclamou para a França as regiões do Mississipi e de seus tributários. Os protagonistas na História Rei Luís XIV Herdou o trono quando tinha apenas 4 anos de idade, quase se afogou logo depois e teve seu caráter moldado durante o período de 5 anos no qual o Parlamento lutou contra a Coroa, onde passou frio, fome e medo o que moldaram seu caráter combativo. Enquanto não possuía idade para assumir o trono foi instruído pelo Cardeal Jules Mazarin, que era a real autoridade na política da França. Participou da guerra contra a Espanha onde ganhou respeito como militar e em 1660 trouxe a paz casando-se com a filha do rei de Espanha. Com a morte de Mazarin em 1661 reclamou a suprema autoridade da França. Proclamou-se também o representante de Deus na Terra portanto, infalível, mas criando problemas com o Sacro Império Romano. Inicialmente tinha o apoio dos ministros, da nobreza e do povo, e criou uma imagem de jovialidade, vitalidade e magnificência. Tinha uma personalidade egocêntrica, fato constatado pela quantidade de palácios (Versailles é um deles) e monumentos à sua honra que ergueu em todo o país, além de obrigar escritores, como fez com Moliere, que escrevessem textos glorificando-o. Passou muito tempo em seu palácio preferido, Versailles, levando consigo grande parte da corte, isolando assim a aristocracia do povo. Neste período a França teve grande desenvolvimento econômico, foram incrementadas as exportações, a marinha militar e mercante se desenvolveram acentuadamente, criaram-se portos, estradas e canais e novamente iniciou-se um expansionismo militar quando são atacadas possessões espanholas em 1667. A guerra entre França e Espanha duraria, com algumas pausas, durante todo seu reinado. A Holanda e a Inglaterra opunham-se tenazmente contra a expansão naval francesa o que fez Luís XIV decidir invadir a Holanda. Em 1678 consegue grande vitória ao conquistar a Holanda, com a ajuda de seu primo Charles II da Inglaterra, vencendo também os aliados da Holanda, a Espanha e o Sacro Império Romano. Depois disto muitos problemas vieram: escândalos na corte, a morte da rainha, problemas com os protestantes. O maior deles chega em 1688 com uma aliança entre a Holanda, a Inglaterra e o Sacro Império Romano que tentam frear a expansão francesa. A guerra termina em 1697 com a França perdendo parte de seu território e possessões, causando assim a perda do suporte popular a Luís XIV. Envolve-se novamente em guerras quando toma partido na sucessão do trono espanhol, enquanto isso continua com seus planos expansionistas que chegam a afetar o Brasil com a tentativa de invasão do Rio de Janeiro por Du Clerc em 1710 e a tomada da mesma cidade por Du Guay-Trouin em 1711. Em 1714 a guerra finalmente acaba, mas custou à França a perda de seu poderio mundial. Luiz XIV morre em 1715 aos 77 anos. O Conde de Vermandois Mesmo tendo seu brasão nos armamentos feitos na fundição real, duas ancoras cruzadas com uma faixa sobrepondo-as levando seu nome, o Conde de Vermandois era uma pessoa que demonstra como eram as parcialidades cometidas naqueles tempos. Era filho bastardo de Luiz XIV e nascera em 1667, tendo o rei reconhecido sua paternidade em Fevereiro de 1669, dando-lhe o título de conde e pouco depois, em Novembro do mesmo ano, o título de Almirante da França. Faleceu em 1683 com 16 anos de idade. La Salle René Robert Cavalier nasceu em 1643, foi educado em escolas jesuítas e planejou tornar-se padre. Durante a expansão francesa, rumou para o Canadá onde foram-lhe dadas terras. Teve aí a oportunidade de tornar-se um explorador realizando viagens e negócios com os indígenas. Deles aprendeu a língua e ouviu lendas do Novo Mundo e ficou convencido de que poderia atingir o Oriente pelos rios e lagos a Oeste. Em 1669 vendeu suas terras e partiu para explorar a região de Ohio e afirmou ter descoberto o rio que leva este nome (fato que hoje os historiadores contestam). Encontrou apoio no conde de Frontenac, da Nova França , uma das possessões francesas do Canadá e iniciaram a fortificação das terras francesas com a construção de um forte no Lago Ontário, tornado-se assim mais poderosos não só sobre os indígenas mas também controlando o comércio entre a região dos Altos Lagos e os assentamentos ingleses e holandeses da costa. Suas metas não foram bem vistas pelos comerciantes de Montreal e pelos padres jesuítas, os primeiros por perder parte da liberdade de comércio e os padres por perderem parte de sua influência com os índios mas, mesmo com estas influências negativas conseguiram, La Salle e Frontenac construir o forte, que levou o nome do conde. Tendo recebido recomendações e provando ser um homem de grandes capacidades não só como explorador, mas também como comerciante, La Salle recebe de Luiz XIV terras e um título de nobreza. Parte em 1677 para a França, onde pede ao rei a permissão para explorar novas terras a Oeste e construir quantos fortes achasse necessário, bem como para requerer o monopólio do comércio de peles de búfalo. Recebeu a permissão mas não o dinheiro para realizar seus desejos, fato que o fez buscar grandes empréstimos em Paris e em Montreal. Retornou ao Canadá em 1678 acompanhado de Henri de Tonty, um mercenário italiano que mostrou ser seu melhor amigo. Em 1979 constroem a embarcação "Griffon" que se tornou a primeira embarcação comercial do Lago Eire. Nela estavam as esperanças de La Salle de conseguir fundos para realizar as explorações no interior que seriam realizadas pelo rio Mississipi. Enquanto isso aprendia com os índios as dificuldades do novo mundo, as melhores épocas para realizar as viagens e onde e como conseguir suprimentos. Suas esperanças sofrem um golpe com o naufrágio da "Griffon" e pela deserção e destruição do forte Crevecoeur por ele construído no rio Illinois e onde estava sendo construída nova embarcação. Mesmo assim continua suas explorações e, junto à Tonty, desce o rio Mississipi e atinge o Golfo do México. Em 9 de Abril de 1682, reclamou para a França as terras adjacentes ao rio e as chamou de Louisiana, em homenagem ao rei. No ano seguinte constrói o forte Saint Louis, no rio Illinois, onde estabelece uma colônia com centenas de índios. Ao pedir auxílio para sustentar a colônia, constata que o conde Frontenac não estava mais no cargo de governador e quem assumira o cargo não via com bons olhos o poder que La Salle tinha. O novo governador ordena que o forte seja abandonado o que faz com que La Salle parta para a França para pedir apoio do rei. Este pedido é bem acolhido e todas as suas propriedades e privilégios são mantidos. Ao mesmo tempo mostra seus novos planos: estabelecer novas fortificações e armar um exército composto de 200 franceses, 15.000 índios além de corsários e atacar as possessões espanholas no México. A proposta é bem vista tendo em conta a guerra entre as duas nações e La Salle recebe o dinheiro, os homens e as embarcações para realizá-la. Este novo empreendimento sofre diversos golpes. La Salle o o comandante das embarcações entram em desacordo; depois de uma escala nas Índias Ocidentais uma das embarcações é capturada por piratas; doenças atacam a tripulação e o escorbuto mata grande parte da mesma. Além disso, devido à imperfeição das cartas náuticas utilizadas, as embarcações não conseguem atingir a foz do Mississipi e são obrigadas a parar na baia Matagorda, no Texas, a mais de 500 milhas de distância do ponto desejado. Os problemas de relacionamento entre La Salle e seus homens se acentuam ainda mais quando uma segunda embarcação, a "Aimable" naufraga e leva consigo grande quantidade de comida, medicamentos, suprimentos e mercadorias além de provocar a perda de muitas vidas. Poucos dias depois, durante uma tormenta a "Belle" é lançada sobre um banco de areia e muitos homens morrem ao tentar salvar-se. O fim de La Salle chega, ao ser morto por seus próprios homens, durante uma tentativa de atingir o Mississipi pela terra, já que as tentativas de corrigir a rota pelo mar haviam sido infrutíferas, morte essa justificada pela sua arrogância, segundo os que sobreviveram à expedição. Neste fim trágico partia um dos maiores exploradores americanos e com ele muitas das esperanças da criação de um império francês na América. Os trabalhos de recuperação Os restos da embarcação foram encontrados a uma profundidade de 4 metros recoberta pela areia. Seu estado de conservação era muito bom numa das primeiras fases, um grupo de arqueólogos escavou, coletou informações e objetos do "relito" mas a maior parte deles ainda continuava sob os sedimentos. Sendo a visibilidade subaquática na área extremamente reduzida e com um substrato que torna as operações de escavação muito difíceis foi então elaborado um projeto onde a embarcação seria colocada à seco. O projeto foi realizado construindo-se dois diques: um delimitando a zona de pesquisa e o outro, em torno deste. O espaço entre as duas barreiras foi dragado e preenchido de areia e então a área central foi também dragada.
Ao ser retirada a água da área central, os restos da embarcação puderam ser expostos aos trabalhos sistemáticos dos arqueólogos e da equipe de conservação pois todo objeto que permanece submerso por longo período de tempo deve, ao ser exposto novamente ao ar, receber imediato tratamento para evitar o risco de ser irremediavelmente perdido. Nos subseqüentes trabalhos a embarcação foi sendo exposta tendo suas partes e objetos retirados, depois de devidamente ser marcada sua posição no naufrágio.
Os trabalhos continuaram até que as sucessivas "camadas" foram sendo retiradas e culminaram com a retirada total da embarcação e seu conteúdo. Os objetos resgatados Durante os trabalhos de escavação foram retirados, além de elementos da estrutura da embarcação: 1. Canhões
2. Objetos utilizados nos armamentos tais como estas pedras de sílex que serviam para dar a ignição à pólvora dos mosquetes e pistolas.
3. Objetos de uso geral ou pessoal, tais como:
Garrafas de bebida Pratos e Potes
Calçados e Objetos de adorno Objetos pertencentes a este último grupo surgiram em grande quantidade no sítio (por exemplo foram encontrados mais de 300 dos sininhos de bronze visto na figura acima), pois possivelmente estavam sendo transportados com a intenção de trocas com os índios. Tudo o que foi retirado está passando por processos de conservação que se estenderão por vários anos. As informações foram coletadas utilizando-se um estudo metódico que foi realizado dividindo-se o sítio em quadrantes e em quatro equipes de trabalho. Durante os trabalhos utilizaram-se avançadas técnicas de mapeamento eletrônico que, unidas aos dados colhidos por meio de medições, fotografias e desenhos, permitiram atingir uma precisão de 1 milímetro nas marcações. Os dados e objetos coletados forneceram vasto material de estudo que levará vários anos para ser processado. Este trabalho deve ser tomado como exemplo não só pela forma pela qual foi desenvolvido bem como pelos investimentos que foram utilizados. O custo total do projeto foi estimado em mais de 4 milhões de dólares sendo que destes 1,7 milhões foram fornecidos pelo estado do Texas. Digo que sirva de exemplo pois os valores envolvidos apenas neste projeto de arqueologia subaquática, um dos vários em andamento nos EUA, são dezenas de vezes maiores do que os que são investidos em toda a arqueologia brasileira. Marcello De Ferrari. Deixo aqui meus agradecimentos à Texas Historical Commission, às pessoas envolvidas no La Salle Project e especialmente a Andrew e Rebecca Hall, que gentilmente me permitiram o uso das imagens aqui reproduzidas.
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