CONSERVAÇÃO


 A matéria que diz respeito à conservação e ao tratamento de objetos encontrados é vasta, especializada e hoje ainda incompleta, mas de extrema importância para um estudo contínuo dos elementos encontrados em uma pesquisa subaquática.

 Podemos dividir nossos achados em 3 grandes grupos: materiais orgânicos, metais e substâncias minerais.

      A.  Para os materiais orgânicos a primeira fase do tratamento é a dessalinização em água doce, preferencialmente destilada, por pelo menos 15 dias.

 Após este tratamento inicial pode-se fazer a desidratação utilizando o processo de liofilização, fazendo-se primeiro o congelamento e depois a sublimação a vácuo. Isto requer um congelamento preliminar que não é tolerado por todos os materiais recuperados, pois, a água quando congelada aumenta de volume e isto poderia danificar os objetos. Por este motivo, e mesmo que o processo não dure mais que 48 horas, recorre-se normalmente à prática de seguidas imersões em álcool com percentuais progressivos, 50%, 80% e 100% (onde o álcool hidrófilo absorverá a umidade restante).

 Alguns materiais orgânicos necessitam de tratamento especial:

             1.            Peles:  podem ser tratadas com uma mistura de óleo de rícino e álcool, tendo-se o cuidado de impregná-las bem, de modo a fazer com que ganhem resistência e flexibilidade. Ao mesmo tempo devem ser tratadas com produtos bactericidas. Finalmente devem ser conservadas sempre longe da umidade.

             2.            Couro:  Desidrata-se com álcool e faz-se um tratamento com parafina. Os objetos são imersos na solução de parafina quando ainda embebidos em álcool por um período que varia de acordo com seu tamanho. Quando retirados da solução deixa-se evaporar o solvente e se alisa o objeto com um pano macio.

             3.            Objetos de papel:    Deve-se tratar inicialmente com fumigação para que se obtenha um tratamento bactericida eficaz. Caso a tinta tenha desaparecido, pode-se recuperá-la utilizando fotos especiais com luz ultravioleta ou com infravermelha. Caso os documentos estejam levemente carbonizados, usaremos uma solução a 5% de nitrato de prata. Após o tratamento evitar sempre a luz e a umidade.

             4.            Madeira:   As técnicas para a conservação da madeira estão em plena evolução e existem vários sistemas experimentais, mas pode-se ter a certeza de que ainda não foi dada a palavra definitiva sobre o assunto.

 Mesmo que aparentemente em bom estado de conservação a madeira terá perdido, devido ao tempo que passou imersa, suas características iniciais de elasticidade e resistência, tendo assim certa fragilidade estrutural. Produtos manufaturados (estatuetas, timões, mobília, etc.) mantém sua forma quando encharcados e foi verificada a penetração da  água neste tipo de objetos nos estudos feitos no “Vasa” (1628) e no “Amsterdam” (1749) : 5 cm. a cada 100 anos.

 Os principais problemas surgem quando os objetos de madeira são levados à superfície. Inevitavelmente ocorrerão, caso não intercedamos, graves mudanças em forma e consistência, devidas principalmente à evaporação da água que preenchia as estruturas celulares da madeira. Também surgirá o ataque pelo mofo que em pouco tempo reduziria a madeira em uma massa disforme.

 Devemos, portanto, manter inicialmente os objetos molhados com água doce ou, em sua falta, com  a própria água salgada, acondicionando-os em recipientes ou em sacos plásticos que, hermeticamente fechados, manterão a umidade em alto nível por um bom período de tempo. Para uma preservação maior, acrescentamos produtos antimofo tais como o pentaclorofenol de sódio que impede os processos de decomposição biológica.

 Para a conservação definitiva, devemos primeiro substituir a água que penetrou nas células da madeira por um elemento que permita a consolidação de sua estrutura. Inicialmente devemos eliminar completamente os sais presentes, mantendo a madeira em água destilada que deve ser trocada constantemente, por um período que varia de acordo com a permanência dos objetos na água salgada. Podemos tratar simultaneamente a madeira com produtos fungicidas.

 O passo seguinte é a fase de manutenção das estruturas. Para este fim o método  mais  utilizado se baseia num  produto que recebeu o nome de  PEG  (polietileno glicol), solúvel em água e que é encontrado com o nome comercial de Carbovak. O método consiste no tratamento de imersão em soluções inicialmente de 15% . Imersões sucessivas são feitas aumentando-se as concentrações de PEG (são utilizados PEGs de pesos moleculares diferentes, normalmente o PEG 1500, seguido do PEG 4000 e por vezes o PEG 6000).

 O tratamento completo tem uma duração relativamente longa, que depende do tempo necessário  para que o PEG   ocupe inteiramente os espaços que antes eram ocupados pela água. O tratamento é interrompido quando os objetos atingem aproximadamente o dobro de seu peso original, já que o PEG possui um peso específico duas vezes maior do que o da água. Para uma total preservação são administrados fungicidas à base de ácido bórico.

 Existem alguns outros sistemas de conservação da madeira, mas que não possuem ainda a confiabilidade do tratamento com PEG. Dentre eles o primeiro é o da Liofilização, já citado no início deste capítulo. O segundo é um sistema químico, no qual a madeira é imersa em uma solução de sais de Cromo e segue-se uma polimerização com óleo de linhaça .

 Outro destes processos possui uma primeira fase semelhante ao tratamento com PEG: substitui-se o espaço das células da madeira, antes ocupado pela água, por uma resina líquida que, logo em seguida é polimerizada através de raios gama. Este último método tem apresentado bons resultados, mas é impraticável em partes ou peças muito grandes já que a aplicação dos raios gama é feita em câmaras com paredes de chumbo, o que , no caso de peças muito grandes, tornaria o local de tratamento mais parecido com um “bunker” do que com um laboratório.

            B.   Passando para os metais , a operação inicial é a da análise do estado em que estas peças se encontram por meio de métodos mecânicos e, quando se deseja saber a integridade interior das peças, por meio de raios X.

 Com a finalidade de eliminar corrosões dos objetos podemos recorrer ao método eletroquímico: neste caso os objetos são colocados num recipiente de ferro, dentro de uma solução de Soda cáustica e Zinco em pó; toda a solução é fervida por uma ou duas horas, tendo-se o cuidado de manter constante o volume de água. Após este período, lavam-se as peças com muita água destilada.

Podemos também utilizar para a mesma finalidade o banho eletroquímico, mas deve-se tomar cuidado com estado interno dos objetos, pois existe a possibilidade de uma quebra dos objetos.

 Os metais nobres, como o ouro e a prata, normalmente não são muito atacados pela oxidação, bastando um bom polimento com substâncias não muito abrasivas ou jatos de ar quente para ter a peça em bom estado de conservação. O chumbo normalmente é encontrado apenas com uma oxidação superficial, mas, outros metais como o cobre e as ligas, devem ser analisados caso a caso, pois várias vezes foram encontrados em perfeitas condições, provavelmente por uma proteção catódica e, outras vezes em estado de impossível recuperação.

             C.   No que concerne aos materiais minerais, deve-se ressaltar que, na maior parte dos casos estes são encontrados muito danificados.

 As cerâmicas, pintadas ou não, devem ser colocadas a secar a sombra, logo após terem sido retiradas  com água as incrustações sedimentares que normalmente se encontram. Tal operação de limpeza quando feita em cerâmicas pintadas deve ser realizada sem excessos para evitar possíveis danos às cores. Resta para uma perfeita conservação, o revestimento com uma fina camada de verniz incolor.

 O vidro, conhecido desde a Antigüidade, quando encontrado inteiro, não necessita mais que um tratamento semelhante ao dado às cerâmicas e, quando necessário, para se retirar uma incrustarão mais firme, um banho em uma solução a 2% de ácido sulfúrico seguida de uma secagem com álcool ou éter.

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