Formação de um sítio


Quando um barco navega pode-se afirmar que é um conjunto em harmonia, um casco possui partes definidas e uma carga arrumada de forma específica. Quando este barco naufraga, esta organização desmorona no momento do naufrágio e no impacto com o fundo, sendo que seus restos são assimilados pelo fundo ocupando, às vezes, grande área.

Existem, basicamente, 3 fases sucessivas em um naufrágio:

            -  O  “afundamento” ;

            -  o choque com o fundo ; e

            -  o deslocamento e deterioração do barco e da carga.

1a. Fase

Uma embarcação pode naufragar por diversos motivos, entre os quais o mais freqüente é o choque com algum obstáculo ( um recife, outro barco, etc.), impacto este que produz uma abertura no casco que o faz afundar; pode também naufragar devido a uma tempestade que o inclina além do limite; ou pode irromper um incêndio à bordo que o destrua quase que totalmente.

Pode-se citar alguns naufrágios e suas diferentes causas:

“Kronan”- 01/06/1676 -  Batalha.

“Califórnia”(RJ) - -- /-- /1866 -  Afundado por piratas.

“Galeão Sacramento”(BA) -  05/05/1668 - Tempestade.

“Titanic”- 14/04/1912 - Choque com iceberg.

“Andrea Dória” -  27/07/1956 -  Choque com outro navio.

“Aquidabã”- 21/01/1906 -  Explosão à bordo.

“Wasa” -  10/08/1628 -  Vento.

“Príncipe de Astúrias” -  06/03/1916 -  Choque com a costa.

“Lusitânia” -  07/05/1915 - Torpedeado.

“Principessa Mafalda”(BA) - 25/10/1927 - Acidente mecânico.

“Dart”(SP) -  11/09/1884  -  Impacto com laje submersa.

“Essex” -  20/11/1819  -  Impacto com cachalote.

“Pinguino”(RJ)  -  24/06/1967 -  Incêndio e auto alagamento.

Este “afundamento” pode ocorrer de proa, popa, lateralmente ou, no pior dos casos para uma pesquisa, de cabeça para baixo (pior pois a carga e partes da estrutura do barco seriam dispersas por uma grande área).

2a. Fase

O impacto com o fundo  é o momento mais complexo na difícil dinâmica de um naufrágio; quase tudo depende do tipo de fundo que o navio irá chocar-se. Pode ocorrer que a estrutura do barco permaneça intacta ou, em casos muito freqüentes, que ela se quebre em um ou mais lugares; pode acontecer, durante a  descida, um maciço deslocamento da carga, o que provocaria um impacto lateral , ocasionando assim o possível rompimento do casco e uma dispersão da carga;  pode ocorrer também, um caso verdadeiramente afortunado, do barco pousar no fundo sem que ocorram maiores danos.

Quanto aos tipos de fundo que nosso naufrágio poderá encontrar podemos dividi-los em 3 grupos e, destes grupos muito depende  a conservação  e o deslocamento do casco e da carga:

            -  Fundo  duro” ou rochoso;

            -  Fundo  "misto"; e

            -  Fundo  mole” ou arenoso.

Num fundo  duro” ou  rochoso  o naufrágio  irá  se deparar com uma situação crítica, pois além de freqüentemente inclinado, este tipo de fundo é cheio de irregularidades nas formações rochosas o que provocará um maior dano nas estruturas do casco e, com o passar do tempo, em conjunto com a ação de organismos marinhos ( principalmente o Teredo navalis ) e de fatores físico-químicos, boa parte da carga será quebrada ao chocar-se de encontro às pedras e seus fragmentos serão escondidos pela fendas existentes no substrato rochoso.  

Num fundo "misto" , que é formado por areia ou lodo e rochas mais isoladas, o casco provavelmente irá se chocar  de forma menos violenta e sentirá menos os danos do impacto, com o passar do tempo sua estrutura tende a quebrar-se devido também ao peso de sedimentos que irão se acumular e , às vezes, chega a adquirir o aspecto do próprio fundo, aumentando assim a dificuldade de sua localização.  

O último caso é o do fundomole” ou arenoso que é, normalmente, plano, até certo ponto macio e com pequena presença de rochas, o que faz com que o barco não sofra, de imediato, maiores danos. O fundo assumirá, pouco a pouco, a forma da parte inferior do naufrágio, incorporando-a.  Decorrido certo tempo, as laterais do casco, enfraquecidas pelos ataques de agentes marinhos, e sob pressão da carga e sedimentos, cederão, deixando escapar seu conteúdo. Esta massa de material será recoberta de sedimentos ( areia e lodo) e incrustações (corais, crustáceos, etc.) e ficará com a forma de um pequeno morro, não sempre bem identificável, de onde surgirão alguns objetos e pedaços do casco.  

Os tipos de fundo também determinam o comportamento que deve ser mantido durante os mergulhos, por exemplo: na ausência de correntes marinhas e com um fundo de sedimentos finos    ( areia ou lodo ) é necessário mover-se lentamente, quase sem bater as nadadeiras e, normalmente, sem tocar o fundo. Os tipos de fundo também condicionam o uso de certos equipamentos para a busca, o levantamento topográfico e o resgate.

Do ponto de vista físico, quanto menores as dimensões de um sedimento, isto é, quanto menores forem as dimensões das partículas que o formam, maior é a proteção que terá o “relito”; todavia devemos lembrar que não são apenas alguns grãos que interagem com a estrutura, mas sim todo o ambiente. 

Sedimentos muito pequenos oferecem condições negativas à deterioração, pela falta de oxigênio entre suas partículas, enquanto o aumento no tamanho dos grãos nos leva a ter condições ambientais mais oxigenadas o que facilita a ocorrência de reações químicas e uma maior proliferação de organismos.

Para a 3a. Fase ver:

 A deterioração de um naufrágio

Marcello De Ferrari.