A "GROSVENOR"

O Tesouro que o mar não quer devolver.

Um pequeno ponto numa carta náutica da África do Sul, uma baia que fica a cerca de 200 quilômetros de Durban. Em sua costa naufragou, a 4 de agosto de 1782, a "Grosvenor" e hoje tem seu nome: "Grosvenor Bay".

A "Grosvenor" era uma embarcação inglesa de 450 toneladas, comandada pelo capitão Coxen, conhecida como sendo veloz e segura em sua navegação e que pertencia à Companhia das Índias. Havia feito uma escala em Trincomalee, no Sri-Lanka (antigo Ceilão) e partira para Portsmouth na Inglaterra.

Transportava à bordo cerca de 150 pessoas. Entre os passageiros, comerciantes, oficiais e funcionários coloniais, muitos deles com mulher e filhos. Além da bagagem e bens dos passageiros e tripulação, em seu manifesto de carga constavam 750 barras de ouro, 1450 barras de prata, 200 sacos com moedas de ouro, 19 caixas pequenas com diamantes, esmeraldas, safiras, rubis além de transportar grande quantidade de marfim.

Um objeto não constava deste manifesto e que, segundo as palavras do capitão Coxen numa carta para sua esposa, " iria deixar atônita toda a Inglaterra ". Se tratava do "Trono do pavão", que pertencera ao Grão Mongol. Segundo consta era um trono sustentado por quatro pernas de ouro, incrustado de pérolas, safiras, rubis e esmeraldas, o encosto era formado por duas caudas de pavão (daí seu nome) em ouro, ricamente trabalhas em suas penas que eram cobertas p&or pérolas e diamantes.

Para que se possa ter uma idéia, este trono havia sido visto e descrito em 1665, pelo joalheiro francês Tavernier que o havia avaliado no que hoje seriam US$ 25 milhões. Depois disso ficou longe dos olhos dos estrangeiros até que em 1738, durante uma invasão , um exercito matou mais de 100 mil pessoas, saqueou templos e palácios, tendo levado o trono que, posteriormente foi vendido para a Inglaterra, que o transportava na "Grosvenor".

O NAUFRÁGIO

A embarcação foi atingida por fortes temporais quando havia atravessado o Oceano Índico e se aproximava da costa da África do Sul, segundo os cálculos do capitão deveria estar a algumas centenas de milhas da costa, cálculos que provaram ser errôneos devido às cartas utilizadas, antiquadas e com dados inexatos.

Uma discussão surge entre os oficiais pois alguns afirmam ter visto entre a chuva e o nevoeiro algumas luzes ou fogos e outros concordam em dizer que ainda estavam bem distantes da costa. A situação se torna crítica quando o oficial de guarda ouve na proa o barulho de ondas quebrando e vê, a uma centena de metros, rochas que afloram da água agitada e antes que o capitão possa subir ao comando a embarcação se choca com os rochedos.

A "Grosvenor" estava presa, inclinada sobre seu bordo direito a apenas 30 metros da costa, seus mastros caem no mar, ela se inclina ainda mais e com fortes ruídos ameaça se partir. As pessoas se amontoam na popa, a parte que ficou mais elevada, e as águas já haviam levado algumas pessoas cujos gritos haviam desaparecido sob o estrondo das ondas quebrando.

Duas pessoas conseguem atingir a praia levando um cabo que é preso nas pedras. Quando foi esticado, ele pode salvar diversas pessoas, outras vencidas pelo medo ou cansaço, caem e se afogam. Enquanto isso, na embarcação é construída uma balsa que, cheia de mulheres e crianças, chega à duras penas até a praia. Neste momento uma grande onda cobre a "Grosvenor", que se despedaça levando consigo alguns náufragos e outros são atirados à costa, cheios de ferimentos.

Do naufrágio sobreviveram 123 pessoas que iriam passar por grandes sofrimentos pois estavam muito longe de qualquer sinal de civilização, cercados por centenas de quilômetros de deserto, numa região dominada por selvagens nômades.

Quatro dias depois do naufrágio, quando as pessoas exaustas se haviam recuperado um pouco, e os mortos enterrados, tomou-se a decisão de começar uma caminhada em busca de auxílio. Fora tomada a decisão de percorrer a costa em direção da baia de Algoa, onde existia uma colônia de europeus.

Foram formados 3 grupos, o primeiro comandado pelo primeiro oficial, o segundo onde estavam as mulheres, crianças, doentes e feridos comandado pelo segundo oficial e o terceiro, na retaguarda, comandado pelo capitão Coxen.

Desde o primeiro dia, selvagens armados de lanças, circundavam os náufragos e lhes atiravam pedras. Não se podia pensar em resistir, primeiro pela quantidade de pessoas e também pelo fato das armas estarem inoperantes, pois a pouca pólvora existente ainda estava molhada. Com esta superioridade flagrante, os selvagens começaram a se apropriar dos víveres e da pouca água doce que se havia salvado da "Grosvenor".

Os náufragos mesmo sendo atacados, além de debilitados pela fome e sede continuavam, cambaleantes, sua longa caminhada. Alguns não conseguiam e caiam por terra, terminando por serem mortos pelos selvagens ou por feras que eram ouvidas durante a noite a rondar os fogos acesos para atenuar o frio e o medo.

A única alimentação provinha de moluscos coletados ao longo das praias, para beber tinham apenas a água salobra.

Como os ataques continuam, a fome e a sede se fazem sentir mais e mais, retardando assim a marcha, tomou-se a decisão de que um grupo seria formado, entre os que em melhores condições se encontrassem, e este iria em busca de socorro.

Deste grupo, treze semanas depois, um marinheiro chamado William Habberley, seria o único chegar a um forte holandês no local onde hoje se encontra Port Elizabeth. Com suas últimas forças conta as desventuras da "Grosvenor" e das pessoas que se encontravam à bordo.

Mesmo estando, naquele tempo, a Holanda em guerra contra a Inglaterra, o governo holandês enviou uma expedição de socorro formada por 400 homens que iria efetuar buscas ao longo dos quinhentos quilômetros percorridos pelo náufrago. O resultado das buscas foi sinistro, apenas alguns esqueletos humanos encontrados nas areias e nenhum sobrevivente.

Anos mais tarde, com a expansão da colonização dos brancos, algumas mulheres foram encontradas e soube-se que o grupo que ficara na retaguarda fora atacado pelos selvagens, tendo sido mortos todos os homens e sendo raptadas as mulheres, que foram levadas para tornarem-se esposas dos chefes negros. Das poucas encontradas, nenhuma delas voltou para a Europa.

AS TENTATIVAS DE RECUPERAÇÃO DO TESOURO

Em 1789, sete anos depois do naufrágio, parte da Cidade do Cabo uma expedição para tentar resgatar o tesouro da "Grosvenor". Pouca sorte teve além de alguns punhados de moedas de ouro encontradas na areia e a constatação de que o local do naufrágio era muito difícil de ser atingido pelas condições de mar lá encontradas.

Em 1800, dois escoceses, Alexander Lindsay e o capitão Sydney Turner conseguem recuperar nos restos do naufrágio 2000 moedas de ouro.

O Almirantado inglês entra em cena no ano de 1842. O capitão Bowdem tem a missão de conseguir recuperar a preciosa carga, com a ajuda de escafandristas malaios. A localização do naufrágio é rapidamente encontrada, a "Grosvenor" está sobre pedra sólida no meio de dois rochedos numa posição em que as correntes não podem alterar. Sobre o naufrágio acumulou-se uma camada de areia, com cerca de três metros de espessura; esta areia consolidou-se de tal forma ao madeirame que os escafandristas, que dispunham de equipamentos primitivos, não conseguiam penetrar na embarcação naufragada. Depois de dez meses de tentativas infrutíferas o capitão Bowden encerra os trabalhos e retorna para a Inglaterra.

Por muitos anos o mar fez chegar à praia objetos pertencentes ao naufrágio: cacos de vidro e porcelana, algumas jóias, fivelas de sapatos. Foram estes objetos que, em 1905, definiram a área de busca de uma nova expedição. Desta feita se tratava de um consórcio internacional, o Grosvenor Recovery Syndicate. A expedição partiu de Johannesburg equipada com balsas, dragas e escafandristas. Não se conseguiu, inicialmente, definir onde estava o naufrágio, foram recuperadas 250 moedas de ouro e cacos de porcelana chinesa. Quase que por acaso, depois de alguns meses, foram localizados os restos da embarcação, soterrados agora por não mais 3 metros de sedimentos mas sim por 15. Com a ajuda de uma draga se conseguia retirar grande quantidade de sedimentos mas estes eram imediatamente repostos pelas ondas. O golpe final para a expedição foi dado por um acidente com uma das balsas que, ao bater contra uma rocha, acaba por matar um dos escafandristas.

Mesmos resultados obtém um novo grupo, o Webster Syndicate, que pouco depois da Primeira Guerra Mundial, em 1919, tenta a sorte na "Grosvenor Bay".

Em 1921 um novo grupo criado em Johannesburg e chamado Grosvenor Bullion Syndicate, tenta utilizando os equipamentos mais modernos da época recuperar a tão desejada carga. Seu método foi radicalmente diferente: já que não se conseguiu atingir a embarcação naufragada penetrando pela camada de sedimentos, o grupo preparou um esquema para atingir o objetivo vindo por baixo.

Foram contratados engenheiros especializados em minas, que deveriam conceber o projeto de um túnel que se iniciaria na costa e, atravessando as rochas, chegaria na parte inferior do naufrágio. Por mais incrível que possa parecer, a meta foi atingida. Depois de 10 meses de trabalhos, a base da "Grosvenor" foi alcançada. Tudo isso foi em vão pois os investidores, descontentes com os gastos da operação, se recusaram a desembolsar mais dinheiro e os trabalhos foram encerrados.

Nos dias finais do ano de 1921, quando nem bem o grupo da Grosvenor Bullion havia partido, chega ao local um grupo de embarcações pertencentes a uma nova expedição, esta comandada pelo milionário americano Mr. Pitcairn. Utilizando os mesmos métodos do grupo anterior, cavou novo túnel que depois de certo tempo inundou-se. Tentou novamente e quando o segundo túnel também inundou decidiu partir, já que este empreendimento lhe serviu apenas de hobby; mas antes de abandonar o local fez explodir na região do naufrágio toda a dinamite que havia sobrado.

Alguns anos depois, em 1935, um grupo holandês projeta e inicia os trabalhos de construção de um dique que teria como função isolar a água do mar e permitir que fosse dragada a água e a areia que estavam sobre os restos da embarcação. Como os custos para tão exagerada obra foram elevados, o grupo abandonou os trabalhos.

Um dos que conseguiram melhores resultados foi o engenheiro inglês Duckham que, no verão de 1939, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, retirou, com o auxílio de um escafandristra, objetos feitos em ouro e prata que faziam parte da carga da "Grosvenor".

Muitos anos se passaram até que novas tentativas de recuperação fossem realizadas, a do mergulhador Tom Devonshire (1950), a de um grupo de doze escafandristas ingleses (1957), a de Guido de Backer (1963), e várias outras até o presente dia, todas até o momento infrutíferas.

Um pesquisador, o professor P.R. Kirby, provavelmente uma das pessoas que mais pesquisaram documentos relativos ao naufrágio, acredita que pouco mais se encontrará no que ainda existe da embarcação, pois segundo suas pesquisas, ela transportava apenas um cofre com diamantes brutos e uma quantidade não muito elevada de moedas de ouro.

Qual a verdade ?

Apenas quando homens, levados pelo espírito da aventura, conseguirem desvendar o que realmente ainda guardam os restos da "Grosvenor".

PARA SABER MAIS:

Wilson, D. - "The World Atlas of Treasure", Pan Books, London, 1981.
Pickford, N. - "The Atlas of Ship Wreck & Treasure", Dorling Kindesley, London,1994.
Hudson, K and Nicholls, A - "Tragedy on the High Seas" , A & W Publ., New York,1979.

Marcello De Ferrari.