O naufrágio do Imperial Marinheiro


Duas foram as embarcações da Marinha Brasileira que levaram o nome de "Imperial Marinheiro" e ambas tiveram o mesmo fim: o naufrágio.

A primeira foi uma corveta (brigue-barca) construída no Arsenal da Marinha e lançada ao mar em 27/08/1851 tendo naufragado na Restinga da Marambaia em 24/06/1865.

A segunda, da qual citaremos uma breve história, foi o Cruzador "Imperial Marinheiro", construído em Ponta d'Areia (R.J.). O início de sua construção deu-se em 11/08/1882 e foi lançado ao mar em 20/06/1883. Possuía um comprimento de 50,63 m., uma boca de 8,24 m. e um calado de 3,4 m., tendo um deslocamento de 726 toneladas. Com seu meio de propulsão misto ( velame com 3 mastros e máquina a vapor de 150 cavalos ) atingia uma velocidade de cruzeiro de 11 milhas/hora. Seu armamento era formado por 7 canhões de 32 mm. e 4 metralhadoras.

Em 1887, atendendo a apelos provenientes da França, motivados por toques, por parte de paquetes franceses, na região dos Abrolhos, o governo imperial envia o Cruzador "Imperial Marinheiro" da Marinha de Guerra para sondar, localizar e marcar os pontos de risco à navegação naquela área do mar baiano.

Tendo partido do Rio de Janeiro em 5 de Setembro, com uma tripulação de 142 homens e comandado pelo Capitão Tenente João Carlos da Fonseca Pereira Pinto, encontrava-se, na madrugada do dia 7, navegando rumo NNE na costa do Espírito Santo, mais precisamente na altura da foz do rio Doce.

Sua derrota era muito próxima da costa, tão próxima que, às 1:30 horas, chocou-se contra o pontal sul da Barra, a duas milhas da desembocadura do rio, defronte à povoação de Regência.

O mar naquele ponto é freqüentemente bravio e de difícil navegação, fato que já na época havia sido citado por diversos viajantes, entre eles:

  • O príncipe de Wied Neuwied, Maximiliano, em 1815.
  • Auguste de Saint-Hilaire, em 1818.
  • Charles F. Hartt (geólogo canadense) em 1866/7.
  • Cezar A. Marques em 1878.
Tendo o choque ocorrido de madrugada, grande parte da tripulação foi acordada de sobressalto e tentou, desesperadamente salvar a embarcação mas, vendo que as ondas investiam de forma furiosa e de que seriam infrutíferas as tentativas de salvar o Cruzador, buscaram manter-se vivos subindo nos pontos mais altos.

Um escaler foi, com 12 tripulantes, lançado ao mar na tentativa de chegar à terra mas este se despedaçou antes de atingir a praia e um dos tripulantes se afogou. Nadando, os outros, chegam à terra e buscam socorro. Alertando o patrão-mor da Barra é levado o material para a tentativa de salvamento mas pouco pode ser feito pois não haviam embarcações e ainda reinava a escuridão.

Com o amanhecer era crítica a situação pois, mesmo estando próximo da praia (cerca de 150m. ) as tentativas de resgate eram dificultadas pelas condições do mar. Esta tragédia seria de grandes proporções se não fosse a presença de espírito de um pescador, o caboclo Bernardo ( Bernardo José dos Santos ), que conseguiu levar, nadando, depois de ter sido repelido para a praia por quatro vezes, uma linha de pesca ( presa à cintura segundo alguns e, segundo outros: na boca ) pela qual foi puxado um cabo de vaivém.

Inicialmente os náufragos são puxados para a praia agarrados ao cabo, mesmo assim 10 não conseguem chegar e morrem afogados. Uma pequena embarcação (uma chalana) é então utilizada, transportando duas pessoas por vez e, os 13 últimos náufragos sobreviventes são trazidos numa jangada construída com destroços do Cruzador.

No total, 128 pessoas foram salvas e 14 pereceram nas 5 horas em que duraram as tentativas de resgate. Diversas hipóteses surgiram quanto as causas do naufrágio: variação da bússola, erro de cálculo ou observação. Em sua defesa, o Comandante Pereira Pinto afirmou que o sinistro ocorrera devido à forte correnteza ( em suas palavras "Desvio nas águas") e, no processo que ocorreu foram absolvidos todos os oficiais.

Vários foram os que demonstraram atos heróicos durante o naufrágio mas o que mais recebeu homenagens foi o caboclo Bernardo, que foi levado até o Rio de Janeiro onde recebeu uma medalha, por parte da Imperial Regente, Princesa Isabel. Esta medalha, com 25 gramas de ouro, foi vendida em 1914, por sua esposa, quando do assassinato do caboclo Bernardo, que já naquele tempo havia caído no esquecimento.

PARA SABER MAIS:

MENDONÇA, DR. Mario F.- VASCONCELOS, Ten. Alberto - " Repositório de Nomes dos Navios da Esquadra Brasileira ", SDGM, Min. da Marinha, R.J., 1959 (3a. Ed.).

RIO BRANCO, Barão do - " Efemérides Brasileiras ", Min. das Relações Exteriores, Imprensa Nacional, R.J.,1946.

VEROLME (estaleiro) - " A Marinha por Marc Ferrez " Ed. Index, R.J., 1986

Marcello De Ferrari.

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