|
O naufrágio do Moreno |
||
|
Quando
se pesquisa sobre embarcações naufragadas, duas são as possibilidades básicas. A
primeira é a que tenhamos dados históricos, conseguidos por meio de
pesquisa documental, que nos levam a crer que em determinada região geográfica
deva existir um naufrágio. A
outra é a de se ter encontrado um naufrágio, mas não termos a mínima
idéia de qual embarcação seria. Para
quem gosta da pesquisa documental, esta última possibilidade também pode
ser um grande incentivo ao trabalho. Pensemos da seguinte forma: Ao
encontrarmos ou mergulharmos numa
embarcação naufragada, devemos saber que nela estão depositadas, às
vezes de forma nada organizada, informações sobre sua origem, sua época,
sua construção, carga, etc. Partes
de sua construção, objetos, inscrições, tudo isso pode nos ajudar a
levantar sua história mas, nem isso às vezes é possível, suas estruturas já desmoronaram; os objetos já haviam sido
retirados na época do naufrágio, ou o foram mais recentemente; caso
houvesse alguma inscrição, ela está hoje sob densa camada de incrustações.
Sem
estes dados básicos, fica difícil tentar achar o fio da meada que nos
possibilitaria iniciar nossas pesquisas mas, às vezes a Fortuna nos
ajuda. Como
exemplo deste último caso, posso citar o de uma embarcação que se
encontra num local de fácil acesso, e habitualmente visitado por
mergulhadores, dos quais alguns de larga experiência no mergulho em naufrágios.
Durante
uma pesquisa via Internet, recebi os dados de algumas embarcações
francesas que naufragaram em nossas costas e, no meio delas, apareceu:
Moreno - wrecked near Rio de Janeiro - 15/10/1874 O
mais interessante foi o local do naufrágio, a Ilha de Maricás. Segundo
informações Instrutor Maurício de Carvalho, já há muito tempo este
naufrágio é visitado pelos mergulhadores mas sem o conhecimento de sua
identificação. Após
este “pontapé inicial” dado pelo local e data, vamos nós em busca de
jornais antigos, para tentar encontrar maiores informações. O resultado
não foi dos mais expressivos, pela própria ausência de documentos de fácil
acesso sobre o ocorrido (já fazem 125 anos). Por meio de e-mail foram
trocadas algumas informações e, o resultado é basicamente este: A
embarcação MORENO, pertencente à Compagnie des Chargeurs Réunis havia
entrado, dia 13 de Outubro de 1874, no porto do Rio de Janeiro, procedente
do Rio da Prata com escala em Santos, após uma viagem de 10 dias. À
bordo estavam 38 tripulantes e 10 passageiros. Dois destes passageiros
iriam ficar no Rio, o Sr. Louis Lemblia e seu criado Jean, e os outros
seguiriam para Le Havre, porto de destino da embarcação. Em seus porões,
carga variada da qual faziam parte 10.000 sacas de café embarcadas em
Santos. Em
sua parada no Rio recebeu, além de cargas consignada à empresa J.P.
Martin, Potey & C., representante da Chargeurs no Rio de Janeiro, uma
passageira, Mme. Joanne Philippe e mais um tripulante. O
Moreno era uma embarcação nova, tendo sido construída nos
estaleiros em La Seyne no ano de 1872. Possuía 95,45 metros de
comprimento, 10,5 metros de boca e com seu motor a vapor de 860 CV,
deslocava suas 1971 toneladas ( 1.141 ou 1.436 toneladas segundo os
jornais brasileiros da época ) a uma velocidade de 11,6 milhas/hora. Tendo
saído do porto às 17:00 horas, capitaneado pelo comandante A. Thomas, e
navegando a uma velocidade de 10 milhas/hora, eis que, por volta das 19:30
encalha fortemente nas pedras da enseada da Ilha das Maricas.
Terminava assim a 5a. e última viagem do navio francês.
Pela
manhã do dia seguinte, o capitão do porto do Rio de Janeiro, foi
informado do ocorrido e enviou para o local o transporte nacional Bonifácio,
que regressou à tarde com todos os 48 náufragos. Mesmo
tendo sido salvos todos os passageiros e tripulantes, o comandante Thomas,
teve que lamentar a perda total da carga e da embarcação. Justificando o
ocorrido, o comandante alegou falha nas “agulhas” (bússolas) causada
por “um tempo excessivamente nublado e atmosfera carregada de
eletricidade”, que o impediram de manter o rumo. Esta
foi a primeira perda total de uma embarcação da Chargeurs Réunis e seu
valor, além do da carga, foi pago pelos seguradores no ano seguinte. Fontes: Jornal
do Comercio -17.10.1874 Diário
do Rio de Janeiro - 13, 14 e 17.10.1874 Meus agradecimentos aos Srs. Phillipe Ramona e Anthony Lagant Marcello De Ferrari. |
Copyright 1997-2009 Marcello De Ferrari All Rights Reserved Todos os direitos reservados