O PATACHO

N.S. DOS REMÉDIOS E ALMAS, E STO. ANTÔNIO

Patacho: Navio de dois mastros, armados o da proa a redonda e o da ré a latina

(ANGRA, Barão de - Diccionario Maritimo Brasileiro - Rio de Janeiro - 1877)


Várias são as situações que levam à um naufrágio: tempestades, choques com outra embarcação ou com um recife, explosões, mas existe uma que foge às; leis da fatalidade, o naufrágio provocado.

Existem várias ocorrências nas quais a mão voluntária do homem provocou um naufrágio, algumas com vítimas outras apenas com a perda da embarcação e de sua carga. Muitos desses naufrágios voluntários foram movidos pelo valor envolvido com as seguradoras, sendo que é muito difícil provar que isso realmente aconteceu, como no caso do "Concar" naufragado na Ilha de S. Sebastião (Ilhabela). Outras vezes os naufrágios ocorrem por motivos que nunca serão realmente esclarecidos: ressentimentos, desavenças ou loucura.

Este é o caso do naufrágio do Patacho Nossa Senhora dos Remédios e Almas, e Santo Antônio, nome extenso para uma embarcação pequena com dois mastros mas que teve uma longa série de problemas até terminar sob as águas na Enseada de Pititinga (RN).

Tendo partido da cidade de Angra nos Açores em maio de 1693 passou pela costa de Cachéu na Guiné, e recebeu um lote de escravos, zarpou em direção do Maranhão onde deixaria os escravos para retornar aos Açores.

Ao se dirigir para o Brasil, a embarcação começou a fazer água de tal forma que a tripulação mal podia vencer o volume que entrava com o uso das bombas. Foi decidido então rumar para o porto da Paraíba, por ser o mais próximo. Ventos contrários dificultavam a navegação quando mais uma fatalidade surge: quebra-se a cana do leme. Pela dificuldade de navegar e por não poder serem utilizadas todas as velas sem aumentar o perigo de naufragar, seu capitão e mestre Lourenço Vaz Franco, decide manter a rota em direção do Maranhão e parar em algum local onde pudessem ser feitos reparos.

Passaram pela barra do Rio Grande por não terem o governo completo da embarcação e por não existir à bordo alguém que soubesse navegar nesta barra. Ao passar pela enseada de Pititinga, que dista 12 milhas ao norte da barra do Rio Grande, o capitão foi pressionado pela tripulação e, para evitar maiores danos na embarcação, lá parou para reparos.

Ficou estabelecido que, pelo estado da embarcação ser perigoso, seriam desembarcados mantimentos e os escravos, enquanto um tripulante iria até a cidade de Natal dar a notícia do acontecido e providenciar socorro.

Este tripulante (um holandês) retornou com uma sumaca para onde foram transferidas todas as mercadorias possíveis e o leme avariado para ser consertado. Ficou estabelecido também que o capitão partiria com a sumaca para prover os reparos no leme e comprar mantimentos para a tripulação, enquanto o lote de escravos iria por terra até Natal. Ficou como tarefa dos tripulantes, tendo como encarregado o contramestre Luís d'Ávila, inclinar o patacho, aliviado de grande parte do peso, e fazer os reparos necessários no casco.

O capitão Lourenço recebe alguns dias depois o aviso de que a embarcação havia sido colocada a navegar estando capacitada para continuar a viagem até o Maranhão. Parte então para Pititinga, trazendo mantimentos e o leme mas quando chega encontra o patacho afundado de tal forma que na maré baixa apenas apareciam as cobertas do porão.

Interrogando a tripulação, o capitão recebeu a informação de que, provavelmente, a embarcação fora afundada premeditadamente por seu contramestre pois este havia falado abertamente, nos dias que antecederam o naufrágio, que nunca iria seguir o patacho ao Maranhão, que o mesmo já deveria ter ido ao fundo levando todos dentro dele, que "diabos andavam com as pipas a rasto" no porão e que "havia visto e ouvido vozes, que falavam e diziam cousas medonhas" e que estaria sendo lesado pelos proprietários da embarcação.

Permaneceu então o capitão por mais 10 dias no local recolhendo o que fosse possível durante as marés baixas e tentando verificar as causas do naufrágio. Partes da popa e da proa foram retiradas e nelas foram encontrados 2 buracos, um na proa, que havia anteriormente sido fechado pelo calafete de bordo ( Manuel Lourenço ) e outro na popa por debaixo do lastro. Ficava então comprovada a intenção do ocorrido, fato agravado por ter se sabido que o contramestre havia impedido uma tentativa de encalhe na praia quando a tripulação percebeu o fato de que novamente o patacho fazia água.

Seguiram todos à cidade de Natal onde o contramestre foi preso e uma série de ações legais foram tomadas quanto ao pagamento da tripulação e a venda das mercadoria salvas.

 

PARA SABER MAIS:

MEDEIROS FILHO, Olavo de - "Naufrágios do Litoral Potiguar" - I.H.G.R.N. , Natal, 1988.

"Autos do processo relacionado com o naufrágio do patacho N.S. dos Remédios e Almas, e Sto. Antônio" - in Pasta n. 89 do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Marcello De Ferrari.