A Princesa dos Mares

 

Em 1902 nascia a segunda filha do Rei Vittorio Emanuele III, seu nome Mafalda di Savoia. Em sua homenagem foi batizada uma embarcação lançada ao mar a 22 de Outubro de 1908, a Principessa Mafalda.

Este transatlântico, de propriedade do Lloyd Italiano (Lloyd Italiano Società di Navegazione), foi construído nos estaleiros da Società Esercizio Bacini em Riva Trigoso, próximo a Gênova, e veio a substituir sua embarcação gêmea, a Principessa Iolanda, na tentativa de criação de uma linha rápida de luxo para a América do Sul.

Esta substituição ocorreu pois a Principessa Iolanda  teve um triste fim no dia de seu lançamento ao mar em 22 de Setembro de.1907 quando, ao ser posta a flutuar, adernou e tendo sua popa inundada,  encalhou semi naufragada perante os olhos de centenas de curiosos e técnicos do estaleiro.

A Principessa Mafalda iniciou então a linha Gênova - Buenos Aires com escalas em Barcelona, Rio de Janeiro, Santos e Montevidéu, tendo partido para sua primeira viagem a 30 de Março de 1909.

Com seus 147,88 metros de comprimento, 16,94 metros de boca, 10 metros de calado e suas 9.210 toneladas era uma das maiores embarcações italianas de passageiros da época. Seu casco era dividido em 10 compartimentos estanques e seus dois motores, do tipo “quadruple expansion” de 4 cilindros, lhe forneciam 917 hp. permitindo-lhe, com seus dois hélices, navegar a uma velocidade de cruzeiro de 16 nós e uma velocidade máxima de 18,5 nós.

Suas acomodações eram divididas em 1a., 2a. e 3a. classes. Os que viajavam nas classes superiores dispunham de grande conforto como num hotel de luxo, que incluía salões de jantar, salões de leitura, para fumantes e de exercícios.

No ano de 1910 a companhia Navegazione Generale Italiana torna-se a maior acionista do Lloyd Italiano e, neste mesmo ano, a Principessa Mafalda recebe à bordo um personagem famoso. Esta pessoa não veio como passageiro mas sim para coordenar a instalação de uma antena de rádio, era Gugliermo Marconi, e esta antena permitiu a recepção dos primeiros sinais de rádio, vindos da Europa, aqui na América do Sul.

Com a eclosão da I Guerra Mundial chegou a realizar viagens de Genova para New York  transportando cidadãos americanos que desejavam sair da Europa. Foi então transferida para o porto de Taranto onde, por diversas vezes foi atingida mas, graças à perícia de seus comandantes, nunca sofreu grandes avarias.

A 1o. de Junho de 1918 ficou decidido que o Lloyd Italiano seria absorvido pela Navegazione Generale Italiana e que esta daria continuidade à linha Genova - Buenos Aires. Esta linha recebeu uma grande  procura pois, com a crise européia do pós guerra, houve um aumento acentuado na imigração, principalmente a de italianos e alemães,  para a América do Sul.

A viagem final

No dia 11 de Outubro de 1927 a Principessa Mafalda partiu de Gênova em sua rota normal transportando à bordo 971 passageiros instalados da seguinte forma: 52 na 1a. classe, 92 na 2a. e 827 na 3a.

A maior parte dos passageiros tinha como destino final a cidade de Buenos Aires sendo que no Rio de Janeiro iriam desembarcar 26 passageiros (6 da 1a., 10 da 2a. e 10 da 3a. classe) e para o porto de Santos se dirigiam  85 (5 passageiros da 1a. classe, 21 da 2a. e 59 da 3a.)

Como tripulação trazia 288 pessoas, sendo 20 oficiais e 268 tripulantes. Seu comandante era aquele que já a comandava a mais de 10 anos, o Capitão de Longo Curso Simone Guli, de grande experiência e que já havia provado suas qualidades durante a guerra, e que tinha  como imediato o Comissário Carlo Longobardi.

Realizou sua primeira escala em Barcelona e partiu para a América do Sul porém, por um problema mecânico à bordo, realizou nova escala em São Vicente, nas Ilhas Cabo Verde. Tendo sido o problema sanado retomou seu curso.

No dia 24 de Outubro, novo problema ocorre e, mesmo com as categóricas afirmações do comandante Guli comunicando aos passageiros de que nada de grave estava ocorrendo, a velocidade da embarcação foi reduzida a 10 nós, fato que deixou preocupadas muitas pessoas. Segundo informações dadas pela tripulação a redução da velocidade foi necessária devido a um problema com um dos eixos da embarcação e que, mesmo com o problema sanado, por segurança se optara pela redução da marcha.

Durante a manhã do dia 25 nada de anormal ocorreu. Por volta das 16:30 horas a Principessa Mafalda cruza com a Empire Star, embarcação inglesa que pertencia à Blue Star Line, e radiotelegrafa à mesma que tudo vai bem.

O naufrágio

Nem bem se haviam passado 30 minutos da comunicação com o Empire Star, forte trepidação sacode a Principessa. Esta trepidação foi causada, segundo confirmado posteriormente, pelo rompimento do tubo telescópico do eixo da hélice direita. Em questão de minutos a casa das máquinas é invadida pelas águas. O volume de água que penetrou foi tão grande que as caldeiras foram apagadas não chegando a explodir, como algumas versões da época indicavam.

Rapidamente a tripulação verificou a extensão dos danos e um pedido de S.O.S. foi emitido informando que havia grande avaria nas máquinas e fornecendo sua posição da embarcação: 16º 58’ S / 31o. 51’ W.

As máquinas pararam 10 minutos depois. Enquanto isso o comandante Guli tocava o apito de emergência e mandava preparar os botes para a evacuação da embarcação. Quando as sirenes de bordo tocaram foi dada a ordem de embarque nos botes de mulheres e crianças.

Um certo pânico se instala entre os passageiros, especialmente entre os da 3a. classe e muitas pessoas se atiram à bordo dos botes salva vidas sobrecarregando-os o que faz com que 2 deles virem e afundem assim que tocam na água, deixando mulheres e crianças flutuando com seus coletes.

Com o ocorrido com os primeiros botes, a tripulação teve grande trabalho para acalmar os passageiros, utilizando às vezes a força, e convencê-los a embarcar ordenadamente nos outros botes.

O drama e o socorro

Com os pedidos de S.O.S. emitidos pelo Principessa Mafalda, uma grande operação de socorro se iniciaria.

O Empire Star foi a primeira embarcação a confirmar (às 17: 35) que se dirigia ao socorro. Logo em seguida a embarcação holandesa Alhena confirma estar próximo do local do sinistro e que para lá se dirige, logo depois o Formose responde ao pedido.

Às 17:45 a estação de rádio do Principessa Mafalda para de transmitir devido a falta de energia. As embarcações que se dirigiam para o socorro passam a transmitir a última posição do navio sinistrado e pedem auxílio no socorro.

A primeira embarcação a chegar no local é a Alhena que alcança a Principessa às 17:50, e às 18:00 chegaria o Empire Star. Imediatamente informam a posição e iniciam os trabalhos de socorro que seriam  dificultados pelo  mar agitado.

Mesmo com os esforços da tripulação do Principessa, reinava certo pânico à bordo e muitas pessoas se atiravam ao mar tentando subir nos botes salva vidas, objetivo que  muitas vezes não era alcançado pois, como a lotação dos mesmos estava completa, eram repelidos pelos marinheiros encarregados.

A noite se aproximava e, na pouca luz reinante, o quadro era assustador. A Principessa Mafalda se inclinava sobre seu lado de bombordo e começava a ser invadida pelas águas; gritos pedindo socorro das pessoas que se encontravam na água; gritos das que iam subindo para os conveses superiores fugindo da água que se aproximava. Rapidamente as embarcações que prestavam socorro se colocaram o mais próximo possível e lançaram seus botes indo buscar sobreviventes retirando-os da água.

Neste momento é que foi notada a presença de mais um fator aterrorizante: os tubarões. Com o cair da noite às vezes se viam, entre os náufragos, uma barbatana que por vezes só desaparecia quando uma pessoa era arrastada para o fundo.

Às 18:30 as comunicações da Principessa foram reiniciadas por meio de um posto de emergência e recebeu a informação de que para o local do desastre se dirigiam também o Formose e o Mosella. Seu pedido à estas embarcações foi dramático: “Venham depressa. Há ainda muitos passageiros a bordo e não há mais luz”.

Cenas de heroísmo e desapego se misturam ao saque perpetrado por pessoas da 3a. classe; Marinheiros tentam de todas as formas controlar o pânico e socorrer as pessoas; Os botes dos navios de socorro buscam mais e mais por sobreviventes à deriva; Os botes vão e vem levando passageiros que ainda se encontram no navio naufragando; Maridos que se atiram às águas para acompanhar os botes que levam suas esposas; pessoas que se afogam ou são atacadas pelos tubarões; a noite que cai e só resta a luz das embarcações de socorro que tentam iluminar o navio sinistrado para orientar os que ainda se encontram a bordo.

Por volta das 20:00 horas o radiotelegrafista da Principessa faz um apelo desesperado pois poucos eram os botes envolvidos no resgate e ainda a bordo se encontravam mais de 500 pessoas que cada vez mais eram empurradas para a proa pois a popa já desaparecera  e a parte central da embarcação rapidamente a seguia.

Chega para o socorro às 20:30 a embarcação Mosella e novas esperanças surgem  pois imediatamente coloca ao mar seus botes. Logo depois, por volta das 20:50 chega ao local o Formose que já havia preparado 2 grupos de botes que são lançados assim que se encontra a 50 metros de distância da Principessa.

 

Embracações que prestaram socorro ao Principessa Mafalda:

Empire Star:

De  7.199 toneladas pertencia à Blue Star Line e era comandada pelo Capitão C.R. Cooper.

Alhena:

Embarcação de carga e passageiros (apenas 12 e de 1a. classe) de 4.930 toneladas pertencente à companhia holandesa Rotterdam- Zuid Amerika Lijn (RZAL), e lançada ao mar a 26.10 1921.

Formose:

Lançada ao mar dos estaleiros Forges & Chantiers de la Méditerranée a 12.2.1921. pertencia à companhia francesa Compagnie des Chargeurs Réunis. Em suas 9.975 toneladas dispunha acomodações para 100 passageiros de 1a. classe, 40 de 2a. e 85 de 3a.  Durante as operações de socorro ao Principessa seu comandante era o Capitão de Longo Curso e cavalheiro da Legião de Honra Balthazar Allemande.

Mosella:

Pertencente à empresa francesa Compagnie de Navigation Sud Atlantique. Foi construída na Grã Bretanha pelos estaleiros Swan, Hunter & Wigham Richardson e lançada ao mar a 03.09.1921. Fazia a rota Bordeaux - Montevidéu. Suas dimensões eram 147,57 m de comprimento e 18,07m de boca e possuía 10.123 toneladas. Seu comandante na ocasião era o Capitão Joseph Privat.

Avelona:

Também pertencente à Blue Star Line, possuía acomodações para 165 passageiros de 1a. classe e fazia a rota Londres - Rio da Prata. Lançada ao mar a 06.12.1926 pelos estaleiros John Brown & Co. Ltd. de Glasgow.  Possuía 12.858 toneladas e suas dimensões eram 155,50 m. de comprimento e 20,78 m. de boca.

King Frederick:

Embarcação pertencente à empresa inglesa Lamport & Holt Line. Lançada ao mar em 1909, possuía 5.706 toneladas e realizava o transporte de carga na linha Liverpool - Buenos Aires.

Rossetti:

Também pertencia à Lamport & Holt Line. Foi lançado ao mar com suas 6.508 toneladas dos estaleiros da D. & W. Henderson Ltd. em Glasgow a 30.07.1900. Fazia a rota Liverpool - Rio de Janeiro.

Marcello De Ferrari.

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