O naufrágio do UBERABA



 

Como é sabido, o naufrágio que vemos quando estamos mergulhando, é o resultado de uma série de eventos que ocorrem desde quando a embarcação navegava, passam pela causa de seu afundamento e, finalmente pela ação do tempo, de fatores físicos, químicos e biológicos e da intervenção do próprio homem.

Um elemento que é considerado relevante apenas para os que desejam se aprofundar nos detalhes históricos é o da reação das pessoas envolvidas no naufrágio. Vários são os casos onde podemos encontrar sentimentos antagônicos tais como: heroísmo e covardia, amor ao próximo e egoísmo, desapego e ganância.

Muito disto pode ser lido nos jornais da época em que ocorrem os naufrágios. Enaltecem-se os heróis, acusam-se  possíveis culpados, contam-se os dramas dos sobreviventes e lamentam-se os mortos.

Como em muitos casos, de tal maneira foram os relatos sobre o naufrágio da embarcação UBERABA, pertencente ao Lloyd Brasileiro e que naufragou no perigoso Parcel de Manuel Luís.

Construída em Hamburgo, nos estaleiros Reiherstiegwerft, para a empresa de navegação Woermann Linie KG, seu nome originalmente foi HENNY WOERMANN. Lançada ao mar no dia 24 de maio de 1911 e, quando dada por concluída, em 30 de agosto do mesmo ano, possuía 6.082 toneladas brutas, medindo 119,84 m de comprimento, 15,94 de boca e com um calado de 8,20 metros.

Realizando viagens na Europa e para a América do Norte, apenas fez sua primeira viagem à América do Sul em 1914, parando no porto do Recife no mes de agosto, iniciando assim uma rota até o Rio de Janeiro.

No dia 1o. de Junho de 1917, o governo brasileiro, que participava da Primeira Guerra Mundial, confiscou a embarcação. Este confisco se estendeu a outras 44 embarcações alemãs que se achavam em portos nacionais (como por exemplo o Siegmund, rebatizado de Therezina e o Assuncion, rebatizado de Campos).

Já com seu novo nome, UBERABA, a embarcação realizou diversas viagens entre o Brasil e a América do Norte. Numas destas viagens, em março de 1921, era ansiosamente aguardada em Fortaleza. Esta ansiedade não era apenas a de seus passageiros, dentre eles pessoas de destaque na sociedade e na política brasileira da época, como o Sr. Amynthas de Lima, cônsul geral em Barbados; o Sr. F. Moreira, gerente geral das empresas Francisco Matarazzo & Cia; o deputado Souza Filho e o Dr. Américo dos Reis, juiz de direito do Acre; mas também pelo fato de que no UBERABA viajavam os representantes de um grupo de banqueiros americanos que vinham verificar a situação do estado do Ceará para que fosse avalizado um empréstimo de US$ 3 milhões (uma enorme soma em dinheiro para a época).

Tudo corria normalmente. À meia noite, o Comandante Victor Velloso, manda reduzir a velocidade da embarcação e informa ao oficial do quarto qual a rota que este deveria seguir. A rota informada deveria deixar a embarcação pelo menos 10 milhas ao largo de quaisquer pontos de risco à navegação. Nesta mesma troca de turno, o 1o. telegrafista, Sr. Orozimbo Barbosa, deixa a sala de telégrafo aos cuidados do 2o. telegrafista, Sr. Diógenes Padilha. E são deste último as primeiras declarações à imprensa do que aconteceu naquela madrugada.

Quando perguntado sobre o que ocorreu, Padilha (em destaque na foto acima), informou que, por volta da 02:30, a embarcação foi sacudida por três fortes impactos e, minutos depois ficou na mais completa escuridão devido a inundação de sua casa de máquinas. Sentindo que o problema fora sério e que dele dependia a sorte de centenas de passageiros, entre os quais muitas mulheres e crianças, Padilha trancou-se na sala de telégrafo e, às cegas, tentou conectar o equipamento a uma "bateria de accumuladores". Muitos minutos se passaram, mas finalmente consegue seu intento e começa a transmitir o pedido de socorro.

Um primeiro contato foi feito com a embarcação Acre, que se encontrava na região, mas que não tinha condições de ir em socorro. Enquanto isso, a bordo iniciava-se o pânico, motivado pelo choque inesperado  que acordou grande parte dos passageiros e pela escuridão que reinava, aumentando ainda mais as incertezas dos mesmos.

À duras custas, e depois de passadas algumas horas, a tripulação iniciou o desembarque ordenado das pessoas a bordo. Foram lançadas ao mar duas baleeiras, com tripulantes e passageiros. Com o clarear do dia, pode-se verificar a real situação da embarcação. Ela havia atingido uma série de cabeços de coral pertencentes ao Parcel de Manuel Luís. Os porões de carga já estavam inundados e a embarcação naufragava.

Os pedidos de socorro continuavam. Um segundo contato foi feito, por volta das 07:00 e, desta vez o Justin informou que estava se dirigindo para o local do sinistro. O mar não estava muito bravo, mas a correnteza era forte. Forte o suficiente para que o Justin, ao se dirigir para o local do naufrágio, cruzasse com as baleeiras lançadas pelo UBERABA.

O capitão do Justin, vendo que tudo estava bem nelas, pediu para que fosse telegrafada a posição do avistamento e prosseguiu em sua rota, sem as recolher.

Por volta das 15:30 se aproxima do UBERABA e inicia o resgate dos 229 náufragos. A situação estava se tornando crítica pois, apenas algumas horas depois da chegada do Justin, a embarcação nacional naufraga por completo.

O navio com os náufragos atraca em Fortaleza na tarde do dia 27 de março e os jornais locais não param de publicar informes e entrevistas.

De um lado as notícias enaltecem alguns dos tripulantes, tratando-os como heróis. Entre estes o Sr. Diógenes Padilha que passou horas a fio trancado na sala de telégrafo e desembarcou apenas com a última leva de tripulantes. De outro lado, buscaram-se os culpados: teria sido o naufrágio causado pela falha na rota estabelecida, teria o oficial do turno falhado em mantê-la, havia a também a informação de que os faróis de São João e Itacolomy estariam apagados, fazendo com que o rumo tomado fosse errado.

A estas afirmações e dúvidas acrescentou-se a grave acusação de que alguns tripulantes do UBERABA teriam saqueado os pertences dos passageiros que abandonavam o navio.

Tudo isto ocorria enquanto que as buscas pelas baleeiras continuavam. A primeira delas, com 40 pessoas (14 tripulantes e 26 passageiros) foi localizada pelo navio Bragança. A segunda, com 17 tripulantes e 13 passageiros chegou a uma praia nas proximidades de Carutapera, no dia 30 de março. Todos os passageiros e tripulantes estavam a salvo.

Das acusações, nenhuma foi confirmada. O comandante afirmou que o naufrágio foi provocado pela forte correnteza que fez com que a embarcação saísse da rota, se aproximando assim do Parcel; quanto aos faróis, realmente o de São João encontrava-se apagado, mas sua distância até o local do sinistro era de mais de 40 milhas e mesmo que ele estivesse aceso, não seria visto pela tripulação.

Hoje, o casco do UBERABA encontra-se bem desmantelado mas ainda proporciona belos mergulhos graças a sua incorporação ao ambiente subaquático.

Marcello De Ferrari.

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